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Festival Música Viva

Festival Música Viva 2019 • Encontro III

de 25 de maio de 2019
a
25 de maio de 2019

O'culto da Ajuda
Lisboa, Portugal

22h

Duo Tágide recitante Catarina Wallenstein 

O Corpo Brasonado

  

Soprano Inês Simões

Recitante Catarina Wallenstein

Pianista Daniel Godinho

 


1ª PARTE

 

António Chagas Rosa (1960)

Cicuta (Maria Teresa Horta)

I     Cicuta

II    Docemente

III   Modos de amar I, II e III

IV   Educação sentimental

V    O mar nos teus olhos I e II

VI   Penumbra/Nem só

 

 

VII  A boca - os lábios

VIII A nuca

IX   Os seios

X    O umbigo

XI   O clítoris

 

 

2ª PARTE

 

 

Wilhelm Killmayer (1927- 2017)

Blasons anatomiques du corps féminin (poesia francesa do séc. XVI)

Estreia em Portugal

I    Le pied

II   Le genoil

III  Alayne chauld

IV  Le sourcil

 

Poesia erótica

 

V   La bouche

VI  La main

VII O lieu solacieulx

 

 

Poemas


Incursão musical ao universo poético-erótico feminino. Blasons anatomiques du corps féminin foi um género literário e um fenómeno popular na França do século XVI. Muitos poetas aderiram a esta exaltação do corpo feminino, dedicando os seus versos a uma parte anatómica predilecta.

Já a poesia de Maria Teresa Horta (1937) - figura incontornável do movimento feminista português - revela uma sexualidade mais crua e visceral, obviamente centrada no prazer da mulher. A música de António Chagas Rosa, lírica e impetuosa, serve de uma forma orgânica a beleza das palavras.

 

 

 

Biografias

 

Inês Simões | Soprano

Jovem soprano cuja versatilidade lhe permite cantar um vasto repertório, desde o Barroco à música contemporânea.

Trabalhou com os maestros Magnus Lindberg, Hannu Lintu, Paul McCreesh, Sian Edwards, Jean-Sébastien Béreau, Marcelo de Jesus, Nuno Côrte-Real, Rui Pinheiro e João Paulo Santos, os encenadores Kristiina Helin, Olivia Fuchs, Max Hoehn, Ricardo Neves-Neves, Claudio Hochmann, Fernanda Lapa, Figueira Cid e Alexandre Lyra Leite. Colaborou com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra Gulbenkian, Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, Ensemble Darcos e Ensemble Contemporaneus. Apresentou-se na Fundação Calouste Gulbenkian, Barbican Hall, Barbican Pit, Sadler’s Wells, London Coliseum, British Museum, Millennium Centre, Teatro Trindade, bem como nos festivais Dias da Música no CCB, Terras Sem Sombras, Música na Fábrica, Oxford Lieder Festival, Song in the City Concert, Grimeborne Festival e Tête-à-Tête e ainda na  BBC Radio 3 In Tune e Antena 2.

Em ópera, sublinham-se a estreias mundiais de A Canção do Bandido de Nuno Côrte-Real, Play de Jamie Man, Tabacaria de Luís Soldado e The Fisherman’s Brides de Lucie Treacher, e as estreias nacionais de Onheama de João Guilherme Ripper, King Harald’s Saga de Judith Weir, The Waiter’s Revenge de Stephen Oliver e Hummus de Zad Moultaka. Do repertório standard contam-se os papéis de Contessa (Le Nozze di Figaro - Mozart), Susanna (Il Segreto di Susanna - Wolf-Ferrari), Gretel (Hansel und Gretel - Humperdinck), Giulia (La Scala di Seta - Rossini), Rita (Rita - Donizetti), Clarice (Il Mondo della Luna - Haydn), Bubikopf (Der Kaiser von Atlantis - Ullmann), Aminta (Il Re Pastore - Mozart) e Bastienne (Bastien und Bastienne - Mozart).

Em oratória estreou-se no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian ao lado de Iestyn Davies em Solomon de Haendel, interpretando na temporada seguinte o Messias. Participou ainda em obras de Marcos de Portugal, Mozart, Rossini, Schubert, Rutter e Orff.

Grande entusiasta de música contemporânea, Inês Simões estreou mais de 10 obras encomendadas para a sua voz, destacando-se os compositores Jamie Man, Jug Markovitch, Nuno da Rocha, Igor C. Silva, Daniel Moreira, Pedro Faria Gomes, Federic Neyrinck e Miguel Azguime.

Tem desenvolvido uma longa colaboração com o pianista Daniel Godinho. O Duo Tágide apresenta-se regularmente por todo o país tendo, em 2015, lançado o CD Alma Ibérica  pela Editora Discográfica Sonus Music, que visa a divulgação do repertório ibérico de canção lírica.

 

Daniel Godinho | Piano

Daniel Godinho estudou na Escola Superior de Música de Lisboa e na Academia Nacional Superior de Orquestra, onde foi aluno de Alexei Eremine.

Entre 2007 e 2008 frequentou as International Lied Masterclasses no Conservatório de Amesterdão e em 2010 a Deutsche Lied Akademie em Trossingen. Tem tido oportunidade de se aperfeiçoar com importantes músicos como Rudolf Jansen, Axel Bauni, Eugene Asti, Udo Reinemann, Jan Philip Schulze, David Selig, Sarah Walker, entre outros.

A sua paixão pela música vocal e coral tem-no levado a colaborar com vários coros, nomeadamente o Coro Gulbenkian, e a desenvolver um trabalho contínuo com o soprano Inês Simões, explorando um repertório de canção muito abrangente.

Foi pianista acompanhador no Instituto Piaget e na Escola Superior de Música de Lisboa e é actualmente professor na Escola de Música do Conservatório Nacional. Tem acompanhado em concursos importantes, como o Prémio Jovens Músicos, o Prémio de Interpretação do Estoril e o Concurso de Canto Lírico da Fundação Rotária Portuguesa. É, desde 2009, acompanhador do Festival Vocalizze, em Almada.

Daniel Godinho apresentou-se como pianista em Portugal, Espanha e Holanda, e em importantes eventos tais como o Festival Internacional de Música de Mafra, o Festival das Artes de Coimbra, o Festival CisterMúsica de Alcobaça e ainda em concertos para a Antena 2.

Em 2014 gravou o seu primeiro CD com Inês Simões, dedicado ao repertório ibérico.

 

Catarina Wallenstein | Atriz

Nasceu em Londres, em 1986, mas que tinha apenas um ano e meio quando veio para Portugal, teve aulas de canto coral e violoncelo na Fundação Musical dos Amigos das Crianças, o que a levou desde cedo a participar em óperas infantis no Teatro Nacional de São Carlos, como La Bohème, Tosca e Carmen. Nesta altura o seu desejo era ser cantora de ópera.

Entrou para o liceu francês Charles Lepierre, onde teve formação em teatro, um talento que acabou por mostrar no Instituto Franco Português com as peças Sonho de Uma Noite de Verão e O Equívoco. Mais tarde, em 2004, participou na série televisiva Só Gosto de Ti.

Ainda participa ao lado da actriz francesa Catherine Deneuve, no filme Après Lui, de Gaël Morel.

Enquanto frequentava o curso na Escola Superior de Teatro e Cinema, ficou com um papel no filme Lobos, de José Nascimento, que lhe valeu um Globo de Ouro para melhor actriz. Depois desta experiência muitas outras se seguiram.

Singularidades de uma Rapariga Loura, o filme do mais premiado realizador português, Manoel de Oliveira, Um Amor de Perdição, de Mário Barroso, e Salazar - A Vida Privada, de Júlia Prestrelo, contaram com o seu desempenho. O público reparou nas diferentes prestações, a crítica também. É por esses três papéis que os jurados a escolheram para fazer parte do leque de quatro nomeadas para a XV edição dos Globos de Ouro.

Em 2007 Catarina ganhou no European Film Festival Estoril o Prémio L'Oréal Paris - Jovem Talento, um prémio monetário que a levou a mudar-se em 2008 para Paris para frequentar o Conservatoire National Supérieur d'Art Dramatique.

 

 

Poemas  

Blason du Pied

François Sagon

 

Pied de façon à la main comparable.

Pied ferme et sûr, en assiette honorable.

Pied qu’on regarde avant cuisse et tétin.

 

Pied faisant guet de soir et de matin.

Pied nécessaire avec l’oeil pour conduire.

Pied convenable à chasser ou à fuire.

Pied où se voit la grâce et le maintien.

Pied où nature a mis notre soutien.

Pied qui nous sert pour la muraille abattre.

Pied ordonné pour tout le corps ébattre.

Pied qui la main montre d’affection.

Pied en qui gît notre protection.

Pied pour asseoir le camp en toute place.

 

Pied pour casser ou fendre la glace.

Pied mort, pied vif, en dansant, en branslant.

Pied supportant du maintien le semblant.

Pied qui peut faire en maints lieux ouverture.

Pied qui poursuit l’amoureuse aventure.

Pied qui s’arrête au besoin, ou qui court.

 

Pied résolu à bien faire la court.

Pied démontrant quelque bon tour par signe.

Pied où le geste et maintien se consigne.

Pied fondement soutenant tout le corps.

Pied propre à ceux qui ne sont les plus forts.

Pied fort constant, pied qui conduit à l’arche.

Pied qui fait croître un désir en sa marche.

Pied d’un grève assez longue honoré.

Pied de longueur moyenne décoré.

Pied par ses nerfs rendu dessus agile.

Pied par-dessous gardé d’être fragile.

Pied gentillet, pied voûté, sec et net.

Pied soutenant l’arche du cabinet.

 

 

 

 

 

Brasão do Pé

 

 

Pé nobre comparável à mão.

Pé firme e seguro, em situação honrável.

Pé para o qual se olha antes da coxa ou do mamilo.

Pé assistindo noite e manhã.

Pé necessário com o olho, para conduzir.

Pé conveniente para caçar ou fugir.

Pé pelo qual se vê a graça e a postura.

Pé no qual a natureza pôs o nosso apoio.

Pé que nos serve para abater a muralha.

 

Pé ordenado para relaxar todo o corpo.

Pé que mostra afeto à mão.

Pé no qual está a nossa proteção.

Pé para sentar acampamento em qualquer lugar.

Pé para partir ou quebrar o gelo.

Pé morto, pé animado, dançando,

balançando.

Pé suportando a postura da fisionomia.

Pé que pode fazer uma abertura em muitos lugares.

Pé que persegue a aventura amorosa.

Pé que pára conforme necessário, ou que corre

Pé resolvido a fazer bem a corte.

Pé mostrando uma boa curva por sinais.

 

Pé onde o gesto e a postura se gravam.

Pé-fundação apoiando o corpo inteiro.

Pé próprio para aqueles que não são os mais fortes.

Pé bem constante, pé que conduz ao arco.

Pé que faz crescer um desejo com a sua marcha.

Pé honrado por uma perna assaz longa.

Pé decorado por um comprimento médio.

Pé tornado ágil pelos seus nervos.

Pé protegido, em baixo, de ser frágil.

Pé gentil, pé arqueado, seco e preciso.

Pé apoiando o arco do gabinete.

 

 

 

Pied délicat, pied sensitif, pied tendre.

Pied qui nous fait l’amour par signe entendre.

Pied compassé de long et de travers.

Pied enrichi de cinq orteils divers.

 

Pied amoureux de l’autre sans envie.

Pied qui peut bien sauver au corps la vie.

Pied mesuré, pied réglé en son pas.

Pied qui suit l’autre, en ordre et par compas.

Pied sans lequel un corps captif demeure.

 

Pied dont le corps a besoin à toute heure.

Pied qui poursuit la paix de tous discords.

 

Pied suis donc l’ordre et triomphe du corps.

 

 

Blason du Genou

Lancelot de Carle

 

Genou sans os, genou plus mol que pâte.

Genou qui fais penser, à qui te tâte,

Tout l’embonpoint qui près de toi repose.

Genou par qui le reste se dispose.

 

Genou qui es gracieux à toucher,

Et doucement convies d’approcher.

Genou qui es gardien de la porte

Du lieu où est la partie plus forte.

Genou qui rends, ta rigueur oubliant,

 

La révérence au genou suppliant,

Quand l’humble ami par ta douce accointance

Fais parvenir au bien de jouissance.

Traîte-moi bien, ô genou gracieux,

Et donne-moi ce bien tant précieux,

Ou autrement de toi me pourrai plaindre,

Car je puis bien jusqu’au tétin atteindre.

 

 

 

 

 

Pé delicado, pé sensível, pé macio.

Pé que nos faz compreender o amor por sinais.

Pé proporcional ao longo e ao largo.

Pé enriquecido com cinco dedos diferentes.

Pé apaixonado pelo outro, sem inveja.

Pé que pode salvar a vida ao corpo.

Pé medido, pé regrado no seu passo.

Pé seguindo o outro, em ordem e por compasso.

Pé sem o qual um corpo permanece cativo.

Pé cujo corpo precisa a todo o momento.

Pé que procura a paz em todas as discórdias.

Pé que acompanha então a ordem e o triunfo do corpo.

 

 

Brasão do Joelho

 

 

Joelho sem osso, joelho mais macio que massa.

Joelho que faz pensar, a quem te toca,

Em toda a beleza que está perto de ti.

Joelho a partir do qual tudo o resto é ordenado.

Joelho que é gracioso ao tocar

E docemente convidas a aproximar.

Joelho que é guardião da porta

do lugar onde está a parte mais forte.

Joelho que fazes (esquecendo o teu rigor)

Reverência ao joelho suplicante,

Quando o amigo humilde, pela tua doce frequência,

Faz atingir o bem do prazer.

Trata-me bem, oh joelho gracioso,

E dá-me esse bem tão precioso,

Senão poderia queixar-me de ti,

Porque eu posso chegar perfeitamente ao mamilo.

 

 

 

 

L’oreille entend mon affaire conter.

L’esprit me veut et le coeur contenter.

 

L’oeil m’a servi souvent d’heureux message,

Et m’a porté du bon coeur témoignage.

La bouche m’a de mes ennuis passés

Tant allégé, que j’ai dit: c’est assez.

La main m’a tant honnoré et prisé,

Que dire puis: je suis favorisé.

C’est doncques toi en qui est le pouvoir

De ce qui reste et plus désire avoir.

Donc te supplies que ne me veuilles être

Trop rigoureux, mais me veuille connaître

 

Pour ton ami, quand près de toi serai,

 

Te promettant qu’en rien n’offenserai.

 

 

 

Blason du Corps

François 1er

 

Ma plume est lente et ma main paresseuse,

Le sens me fuit par la crainte amoureuse,

 

En disputant sans résolution

De déclarer ma grande passion.

Ô corps qui fait par sa grande vertu

Sentir un bien que j’ai celé et tu,

Ne réputant langue tant soit puissante,

 

Digne à louer cela qui me contente.

 

Tu as puissance, ô corps, de tel effet,

Que sans toi seul rien ne serait parfait.

Ni l’esperit de nous serait connu,

Car comme vent, ou ombre est inconnu.

 

Et si l’on dit, ô corps, que pourriras,

Et que sous terre une fois tu iras,

Répondre peux sans simulation,

Que l’esperit n’aura perfection

 

 

O ouvido pretende contar o meu caso.

O espírito e o coração querem contentar-me.

O olho muitas vezes me serviu de mensagem feliz

E me deu testemunho do bom coração.

A boca, dos meus problemas passados,

Aliviou-me tanto que eu disse: chega.

A mão tanto me honrou e me elogiou,

Que posso dizer: sou preferido.

É então em ti que jaz o poder

Daquilo que resta e que mais desejo ter.

Então suplico-te que não queiras ser

Demasiado rigoroso para comigo, e que faças saber

A este teu amigo, quando perto de ti estiver,

Prometendo-te que em nada te farei ofensa.

 

 

Brasão do Corpo

 

 

A minha caneta é lenta e a minha mão preguiçosa,

A razão abandona-me por causa do medo amoroso,

Argumentando sem me decidir

A declarar minha grande paixão.

Ó corpo que, pela sua grande virtude, faz

Sentir um bem que escondi e calei,

Não crendo que a língua seja assaz poderosa

E digna de elogiar aquilo que me contenta.

Tens potência, ó corpo, de tal maneira,

Que sem ti nada seria perfeito.

Nem o espírito nós conheceríamos

Porque como vento ou sombra é desconhecido.

E se se diz, ó corpo, que apodrecerás

E que sob a  terra um dia irás,

Podes responder, sem mentir,

Que o espírito não será perfeito

 

 

Tant que soyez ensemble glorieux,

Conjoints tous deux par accord gracieux.

Dois-je essayer à louer ce beau corps,

Toujours présent à moi, quand veille et dors?

Certes, oui, montrant par ma faiblesse

 

Que l’on ne peut atteindre à sa hautesse?

Ô corps, qui fais sentir un doux savoir,

Par le plaisir que l’on prend à te voir,

En se trompant trop volontairement,

 

Tous maux portant pour t’aimer doucement.

Front plus poli que n’est le blanc ivoire,

 

Qui fait trouver la blanche toile noire.

Yeux doux, riants, plaisants en apparence,

En qui l’on voit le nenni sans défense.

Nez droit et beau, bouche ronde et vermeille,

Épaisse et molle, à nulle autre pareille.

Haleine chaude, ô comme tu m’es douce,

Lorsque ta langue à la mienne repousse.

Ô blanche joue, ô sang qui en vous monte

 

En déclarant de douce amour la honte,

Comme tu es aux amants agréable,

At à moi plus plaisante et profitable.

Ô belle gorge, ô blancheur tant unie.

Ô dur tétin de quoi j’ai tant envie.

 

Ô battement de coeur et de poitreine,

Quand fort amour anticipe l’haleine,

Ô douce main, molle, blanche et charnue,

Quand tu me prends, tout le sang si me mue.

Jambe légère à marcher promptement,

Là où tu sais qu’est venu ton amant.

Ô grosse cuisse, ô fesse bien troussée

Quand dans le poing on la tient amassée.

 

 

 

 

 

 

Enquanto não forem gloriosos juntos,

Juntos os dois por acordo gracioso.

Deveria tentar elogiar este belo corpo,

Sempre presente para mim, quando estou acordado e quando durmo?

Certamente, sim, mostrando pela minha fraqueza

Que não se pode alcançar a sua altura?

Ó corpo, o que fazes sentir doce saber,

Pelo prazer que se tem em te ver,

Ao enganar-se demasiadamente por vontade própria,

Com todos os males para que te possa amar suavemente.

Testa mais polida do que o é o branco marfim,

Que faz encontrar a branca tela preta.

Olhos suaves, risonhos, agradáveis ​​na aparência,

Nos quais vemos o não indefeso.

Nariz reto e lindo, boca redonda e vermelha,

Grossa e macia, como nenhuma outra.

Hálito quente, oh, como tu me és doce,

Quando a tua língua a minha empurra.

Ó branca bochecha, oh sangue que em vós sobe

Ao declarar a vergonha de um doce amor

Como és agradável para os amantes,

Para mim mais prazerosa e proveitosa.

Ó bela garganta, ó brancura tão unida.

Ó mamilo duro do qual tanta vontade tenho.

Ó batimento de coração e de peito,

Quando o amor forte antecipa o hálito,

Ó doce mão, macia, branca e carnuda,

Quando me pegas, todo o sangue se me move.

Perna leve para andar rapidamente,

Onde tu bem sabes que o amante veio.

Ó grande coxa, oh nádega bem recheada

Quando no punho se a tem amassada.

 

 

 

 

 

 

Ô ventre uni, rond et dur et petit,

 

De qui un mort en prendrait appétit.

Bras déliés qui servent de ceinture

À ton ami quand à toi se mesure.

Chaire délicate et douce à l’attoucher,

Heureux est cil qui te peut approcher.

 

Que dirai plus? Oserai-je entreprendre

En cet écrit en louange comprendre

Le bien des biens, le plaisir des plaisirs,

La cime et but de tous plaisants désirs?

 

Dieu des jardins, je t’invoque et appelle

À soutenir cette juste querelle.

Donne-moi force et puissance en effet,

Que mon labeur je puisse voir parfait.

Doncques dirai en toute révérence:

Ô con, ô con, que tu as de puissance!

Las en toi gît seule perfection

Du genre humain et sa création

En toi seul est le secret de nature,

Dedans toi est tout le bien qui m’assure.

 

Honnête con, épais, plein de chaleur,

Qui fais sentir la parfaite douceur,

Si je pouvais écrire ce que je pense,

À te louer point ne ferais offense.

Or voyez donc si le corps ne doit être

Sur tout loué comme seigneur et maître,

 

Car l’esprit n’a sans lui que le penser.

 

Sans corps ne peut-on plaire n’offenser,

 

Parquoi le corps est maître des effets

 

Qui nous sont tous parfaits ou imparfaits.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ó barriga apertada, redonda e dura e pequena,

De quem um morto tomaria apetite.

Braços soltos que servem de cinto

Ao teu amigo quando a ti ele se mede.

Carne delicada e doce ao tocar,

Feliz é aquele que de ti pode se aproximar.

O que direi mais? Ousaria empreender

Neste escrito, em louvor conter,

O bem dos bens, o prazer do prazer,

O cume e o fim de todos os prazerosos desejos?

Deus dos jardins, eu te invoco e apelo

Que apoies esta justa disputa.

Dá-me força e poder de fato,

Para que o meu labor perfeito possa ver .

Então direi com toda a reverência:

Ó cona, ó cona, quanta potência tens!

Ah, só em ti reside a perfeição

Da raça humana e a sua criação

Em ti só jaz o segredo da natureza,

Dentro de ti está todo o bem que me dá segurança.

Cona honesta, grossa, cheia de calor,

Que faz sentir a doçura perfeita,

Se pudesse escrever o que penso,

Para te louvar em nada te ofenderia.

Ora, vejam então se o corpo não deve,

Sobre tudo, como senhor e mestre louvado ser,

Pois o espírito tem, sem ele, somente o pensar.

Sem corpo, não se pode nem agradar nem ofender,

Pelo que o corpo é mestre dos efeitos

Que nos são todos perfeitos ou imperfeitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Blason du Sourcil

Maurice Scève

 

Sourcil traitif en voûte fléchissant,

Trop plus qu’ébène, ou jayet noircisant,

 

Haut forgeté pour ombrager les yeux

Quand ils font signe, ou de mort, ou de mieux.

Sourcil qui rend peureux les plus hardis,

 

Et courageux les plus accouardis

Sourcil qui fait l’air clair, obscur soundain,

 

Quand il fronçit par ire, ou par dédain,

Et puis le rend serein, clair et joyeux,

Quand il est doux, plaisant et gracieux.

 

Sourcil qui chasse et provoque les nues

 

Selon que sont ses archées tenues.

Sourcil assis en lieu haut pour enseigne,

 

Par qui le coeur son vouloir nous enseigne,

Nous découvrant sa profonde pensée,

Ou soit de paix, ou de guerre offensée.

Sourcil, non pas sourcil, mais un sous-ciel

Qu’est le dixième et superficiel,

Où l’on peut voir deux étoiles ardentes,

 

Lesquelles sont de son art dépendantes,

Étincelant plus souvent et plus clair

 

Qu’en été chaud un bien soudain éclair.

 

Sourcil qui fait mon espoir prospérer,

 

Et tout à coup me fait désespérer.

Sourcil sur qui Amour prit le portait

 

Et le patron de son arc, qui attrait

Hommes et dieux à son obéissance,

Par triste mort, ou douce jouissance.

 

 

 

 

Brasão da Sobrancelha

 

 

Sobrancelha fina fletindo em abóbada,

Muito mais do que o ébano, ou enegrecido jato,

Alto protuberante para sombrear os olhos

Quando fazem sinal, ou de morte, ou melhor.

Sobrancelha que torna os temerosos mais ousados

E corajoso os mais covardes

Sobrancelha que torna o ar claro, sombrio subitamente,

Quando ele escurece de ira ou desdém,

E então o torna sereno, claro e feliz,

Quando ela é doce, agradável e graciosa.

Sobrancelha que caça e provoca as nuvens

Segundo a tensão dos seus arcos.

Sobrancelha sentada num alto lugar, como sinal

Através do qual o coração nos ensina o seu querer,

Desvendando o seu pensar profundo

Ou de paz ou de guerra ofendida.

Sobrancelha, não uma sobrancelha, mas um sub-céu

Que é o décimo e superficial,

Onde podemos ver duas estrelas ardentes,

As quais dependem da sua arte,

Brilhando com mais frequência e mais nitidez

Do que um repentino relâmpago no verão quente.

Sobrancelha que faz minha esperança prosperar

E de repente me faz desesperar.

Sobrancelha sobre a qual Amor fez o retrato

E padroeiro de seu arco, que torna

Homens e deuses obedientes,

Por morte triste ou doce prazer.

 

 

 

 

Ô sourcil brun, sous tes noires ténèbres

 

J’ensevelis en désirs trop funèbres

Ma liberté et ma dolente vie,

Qui doucement par toi me fut ravie.

 

 

Blason de la Bouche

Victor Brodeau

 

Bouche belle, bouche bénigne,

Courtoise, claire, coralinne,

Douce, de mine désirable.

Bouche à tous humains admirable.

Bouche, quand premier je te vis,

Je fus sans mentir tout ravis

Sur le doux plaisir et grand aise

Que reçoit l’autre qui te baise,

Mais après t’ouis parler,

Je pensais entendre par l’air

Les dit de Junon la féconde,

Et de Minerve la faconde.

Parquoi je dis, ô bouche amie,

Bouche à qui tu veux ennemie.

Bouche qui fais vivre ou mourir

Tous ceux qu’elle peut secourir.

Non variable, non légère.

Bouche se mouvant d’un baiser,

Pour toute douleur apaiser.

Bouche riant, plaisante bouche,

Qui baise devant qu’on la touche.

Bouche voudrais-tu emboucher

Celui qui voudrait te boucher?

Bouche où gît tout le mien repos

Bouche pleine de bons propos.

Bouche seule d’où doit sortir,

Ce qui peut mon feu amortir.

Bouche rondelette et faitisse.

Bouche à bien parler tant propice,

Que plus on t’oit, plus on te veut,

Et moins on t’a, plus on s’en deult,

Ne souffre point que ta beauté

Dédaigne ma grand loyauté.

Mais, ô bouche heureuse et honnête,

Ci reçois, entends ma requête.

 

Ó sobrancelha castanha, sob a tua negra escuridão

Enterro, em desejos demasiado funestos,

A minha liberdade e minha vida dolente,

A qual por ti docemente me foi tolhida.

 

 

Brasão da Boca

 

 

Boca bonita, boca benevolente,

Cortesa, clara, coralina,

Doce, de aspeto desejável.

Boca admirável para todos humanos.

Boca, quando eu te vi pela primeira vez,

Fiquei, de verdade, totalmente deliciado

Pelo doce prazer e grande facilidade

Com que o outro, que te beija, recebe,

Mas depois de te ouvir falar,

Pensei ter ouvido pelo ar

Os ditos de Juno a Fecundo,

E de Minerva a Eloquente.

Por isso digo, ó boca amiga,

Boca de quem queres inimiga.

Boca que faz viver ou morrer

Todos os que ela pode ajudar.

Não variável, não ligeira.

Boca movendo um beijo

Para toda a dor acalmar.

Boca rindo, boca agradável,

Que beija antes de ser tocada.

Boca, gostarias de embocar

Aquele que te quer bocar?

Boca onde jaz todo o meu repouso

Boca cheia de boas palavras.

Boca de onde somente pode sair

O que consegue abafar o meu fogo.

Boca redondinha e bem feita.

Boca tão boa para falar,

Que quanto mais se ouve, mais se quer,

E quanto menos se tem, mais se queixa,

Não sofras nada senão a tua beleza

Desdenha a minha grande lealdade.

Mas, ó boca feliz e honesta,

Dito isto, ouve meu pedido.

 

 

Bouche vermeille, bouche ronde,

Bouche au dire et faire faconde

Autant ou plus qu’autre qui vive.

 

Bouche digne, de grâce vive,

Bouche garnie par dedans

De deux râteaux de blanches dents.

Bouche sans nulle tache noire,

Blanche, dis-je, plus que l’ivoire.

Bouche à qui fus autant fidèle

Comme elle est amiable et belle.

Bouche où n’y a chose à redire,

Sinon d’accorder et me dire:

Ami, je suis bouche pour toi

Puisque tu as le coeur pour moi,

Et veux, pour ton mal apaiser,

Que de moi sentes un baiser.

Dis bouche, bouche, en me baisant

Ce que tu dis en te taisant,

Lors aurai le bien que mérite

Le mal que pour toi me hérite

En esprit, en âme et en corps

Sans tel espoir. Si saurais lors,

Ô bouche à bien parler propice,

Que mieux encore fais l’autre office,

Donnant enfin le demeurant

Qu’on ne prend jamais qu’en mourant.

 

Blason de la Main

Claude Chappuys

 

Ô douce main, main belle, main polie,

Main qui les coeurs fait lier et délie,

Main qui le mien a pris sans y toucher,

Main qui embrasse et semond d’approcher,

Main qui à moi dois ouvrir, ô main forte,

 

Qui fors à moi, à tous ferme la porte.

 

Main qui souvent en étreignant le doigt

Sans dire mot, m’a dit je sais bien quoi.

Main qui la trousse et flèche sans douter,

À Cupidon seule pourrais ôter,

 

 

 

Boca vermelha, boca redonda,

Boca graciosa para dizer e fazer

Tanto ou mais do que qualquer um que viva,

Boca digna, viva e cheia de graça,

Boca guarnecida, lá dentro, de

Dois ancinhos de dentes brancos.

Boca sem nenhuma mancha preta,

Branca, digo, mais que o marfim.

Boca a quem fui tão fiel

Quanto ela amável e bonita é.

Boca onde não há nada a replicar,

A não ser concordar e me dizer:

Amigo, eu sou boca para ti

Pois o teu coração é para mim,

E quero, para acalmar a tua miséria,

Que de mim sintas um beijo.

Diz boca, boca, ao beijar-me

O que dizes quando te calas,

Obterei então o bem que merece

O mal que por ti padeço

No meu espírito, alma e corpo

Sem tal esperança. Saberei então,

Boca tão boa para falar,

E que melhor ainda faz o outro ofício,

Dando por fim o tão demorado

Que apenas se prova ao morrer.

 

Brasão da Mão

 

 

Ó mão doce, mão linda, mão elegante,

Mão que liga os corações e os solta,

Mão que a minha pegou sem a tocar

Mão que beija e convida a nos aproximarmos,

Mão que se deve abrir a mim, ó mão forte,

Que a não ser a mim, a todos fechas a porta.

Mão que muitas vezes abraçando o dedo

Sem dizer uma só palavra, me disse bem sei eu o quê.

Mão que o estojo e a flecha sem duvidar

Só ao Cupido poderias tirar,

 

 

 

Dis-je la main que Cupidon ferait

Mouvoir d’amour quand il la toucherait.

Main qui peut seule, et le soir et matin,

Laisser la mienne approcher du tétin.

Main qui permet, s’il est besoin, qu’on puisse

En se jouant savoir quelle est la cuisse.

Main qui permet parfois d’outrepasser,

Mais ce serait assez pour trépasser.

Main qui peut bien faire encore autre chose,

Qui plaît autant que moins dire je n’ose.

 

Main à qui seule appartient qu’elle sache

Ce qu’on ne voit, ce qu’on cherche et qu’on cache.

Main qui peut mieux par écrit assurer

Que l’oeil par voir et bouche pour jurer.

Ô digne main, qui jusqu’au ciel approche,

Main qui fait honte à la neige et reproche,

 

Main qui étreint le noeud de fermeté,

Main qui chatouille en toute honnêteté,

Main que Vénus veut pour sienne avouer,

 

Main qui du luth doucement sais jouer,

Main quand Orphée même l’écouterait,

Comme vaincu la harpe laisserait.

Main que Pallas choisirait pour écrire,

Main qui autant que la bouche peut dire,

Main qui trop plus d’heur envoies en absence

Que l’oeil n’en peut octroyer en présence.

Main frétillante, ôtez vos gants, ôtez,

Et vos plaisirs par vos doigts me comptez.

J’entends ceux-là, dont faut que sois témoin.

Et quand de toi, hélas, je serais loin,

Main, je te prie, fais réponse à la mienne,

Main récris-moi que soudain je revienne.

 

 

 

 

 

 

 

Quero dizer, a mão que o Cupido faria

Mover por amor quando ele a tocaria.

Mão que só ela pode, noite e dia,

Deixar aproximar a minha do mamilo.

Mão que permite, se for necessário, que se possa,

Brincando, saber qual é a coxa.

Mão que permite por vezes ultrapassar,

Mas isso seria o suficiente para morrer.

Mão que pode perfeitamente fazer outra coisa,

Que tanto prazer dá, que menos não me atrevo a dizer.

Mão a quem só cabe saber

O que não se vê, se procura e se esconde.

Mão que pode assegurar mais por escrito

Do que o olho ao ver e a boca ao jurar.

Ó mão digna, que se aproxima do céu,

Mão que envergonha a neve e repreende,

Mão que abraça o nó da firmeza,

Mão que faz cócegas honestamente,

Mão que Venus quer confessar como sua,

Mão sabe tocar docemente o alaúde,

Mão, que quando o próprio Orfeu a ouviria, como derrotado a harpa deixaria.

Mão que Pallas escolheria para escrever,

Mão que tanto quanto a boca pode dizer,

Mão que muito mais que felicidade envia na tua ausência

Do que o olho consegue conceder em sua presença.

Mão contorcida, tira as tuas luvas, tira,

E conta-me os teus prazeres pelos dedos.

Ouço-os a eles, dos quais tenho de ser testemunho.

E, ah, quando estiver longe de ti,

Mão, por favor, responde à minha,

Mão escreve-me novamente para que depressa eu volte.

 

 

 

 

 

 

 

Blason du con

Chauffour

 

Petit mouflard, petit con rebondi,

 

Petit connin plus que lévrier hardi,

 

Plus que lion au combat courageux,

 

Agille et prompt et tes folâtres jeux

Plus que le singe ou le jeune chaton,

Connin vêtu de ton poil follaton,

 

Plus riche que la toison de Colcos,

Connin grasset, sans arêtes, sans os,

Friant morceau de naive bonté,

Ô joli con, bien assis, haut monté

Loin de danger et bruit de ton voisin,

 

Qu'on ne prendrait jamais pour ton cousin.

Bien embouché d'un bouton vermeillet,

 

Ou d'un rubis servant de fermaillet,

Joint et serré, fermé tant seulement

Que ta façon ou joli mouvement

 

Soit le corps droit, assis, gambade ou joue,

Si tu ne fais quelque amoureuse moue.

Source d'amour, fontaine de douceur,

Petit ruisseau apaisant toute ardeur,

Mal et langueur: ô lieu solacieux,

Et gracieux, séjour delicieux,

Voluptueux plus que tout autre au monde.

 

Petit sentier qui droit mène à la bonde

 

D'excellent bien et souverain plaisir,

Heureux sera cil duquel le désir

Cotentera, qui prendre te pourra,

Et qui de toi pleinement jouira.

 

 

Texto em itálico: partes cantadas

 

 

 

Brasão da cona

 

 

Pequena bochechuda, pequena cona arredondada,

Pequena coninha mais ousada do que um galgo,

Mais corajosa do que um leão em combate,

Ágil e rápida e os teus jogos lúdicos

Mais do que o macaco ou o gatinho,

Coninha vestida com o teu pelo despenteado,

Mais rica que o velo de Colcos,

Coninha roliça, sem arestas, sem ossos,

bocado atraente de bondade natural,

Ó bela cona, bem sentada, alto montado

Longe do perigo e do barulho do teu vizinho,

Do qual nunca se diria  ser o teu primo.

Bem estampado com um botão avermelhado,

Ou com um rubi servindo de fecho,

Articulado e apertado, tão fechado que

Apenas a tua maneira ou belo movimento (poderá destravar),

Seja de corpo direito, sentado, a saltar ou brincar,

Se fizeres um amoroso beicinho.

Fonte de amor, fonte de doçura,

Pequeno riacho acalmando todo o ardor,

Mal e languidez: ó lugar prazeroso,

E gracioso, deliciosa estadia,

Voluptuosa mais do que qualquer outra no mundo.

Pequeno caminho que levas direto à bunda

De excelente bem e supremo prazer,

Feliz será aquele cujo desejo

Cotentará, que te tomar poderá,

E que de ti plenamente desfrutará.

 

 

Tradução livre de Inês Simões

 

 
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