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O'culto da Ajuda - other projects

DO AVESSO - Dramatículos 2 de SAMUEL BECKETT

from 12 May 2016
to
14 May 2016

O'culto da Ajuda

DO AVESSO - Dramatículos 2 de SAMUEL BECKETT


Eu não, Acto sem palavras I e Cadeira de embalar

 

pelo Teatro da Rainha 21h30

 

As formas da morte são cursos de vida. Ao contrário do que possam julgar peritos do em cima do joelho e da leitura oblíqua, estamos perante uma vontade de viver, uma vitalidade resistente e constante, exercida e exercitada, através de uma prática obcecada, estética, da forma mínima e faces várias: o que se vê, o que se ouve, o que se instala como rítmica semântica e sensorial, pertence ao universo das formas breves.

 

Não há histórias inteiras nem história, há fragmentos, digressões caóticas, instantes, há dispositivos nas três peças, e uma radicalidade artística que não cede ao expectável (esse “absurdo” que lhe puseram em cima e que não lhe cola), — essa doença de confirmar o que é feito para ser confirmado e que por isso mesmo não é arte. O que Beckett escreve é inesperado — e não é para agradar, é aliterário, aespectacular, forte de economia de meios — e cru, irrecuperável para uma mediatização - celebração ou espectacularização - que lhe retire a escala: são dramatículos, amor do íntimo e do real existencial, do cérebro-corpo, do que emerge no instante que é também longa duração.

 

A escala, sendo mínima é, no entanto, a da máxima extensão existencial e a da própria condição cósmica do humano, sentidos em conexão com um tempo e um espaço concretos em cena e plenos de abstracção: um mundo finito e global, sequências de imagens repetitivas sugerindo outras pelas palavras, uma acústica disposta no espaço, a teia de um solipsismo inelutável que a Boca, o Corpo do actor e a Actriz embalada assumem.  

 

EU NÃO
O jorro segue incontinente. Quem fala não é quem fala, isto é, quem fala não é quem escreve e quem escreve não é quem jorrou as palavras - o texto joga aos sujeitos de elocução e esse jogo é o seu divertimento, tal como o sol brinca às escondidas com as nuvens. Boca é a entidade cénica que Beckett inventa e tem uma autonomia absoluta. Não se trata de fazer o jogo habitual dos universos referenciais, é perceber que a tal reconstituição artística de um real se emancipa deste. A cena é um mundo, podendo ser o mundo. Uma vida não são as vidas. Um momento que concentra todos os que o jorro sofre, jogando a vida nos 20 minutos da performance labial. Mais uma vez os limites tocam-se, umbilicalmente ligados, um mesmo gesto, nascer e morrer.

 

ACTO SEM PALAVRAS 
é um ensaio antropológico. A descoberta das mãos como um outro das patas, diferenciado, é a tal evolução, caminho de avanço retrocedente. E descobrir os processos associativos como inteligência das coisas é também processo. E não é lógico, silogístico. Procede por recuos e avanços. Avança-se na dor, corpo jogado ao chão, a cada tentativa errada. Errando de novo. A descoberta da técnica é um jogo de crianças: um cubo sobre um cubo sobre outro cubo faz um escadote. O equilíbrio é outro assunto. O instrumento vai ganhando consistência equilibrante. Experimenta-se. E cai-se. Mesmo suicidar-se é uma técnica, o laço em torno do pescoço e o tronco da árvore. Mas a árvore sai do sítio, vai para bastidores e de bastidores foi ele expulso violentamente. A tesoura? Corta, é um instrumento cortante que cai da teia sem que se perceba o que é a teia, esse céu de manipulações. Como os bastidores. A caixa de cena é uma máquina de torturar. O jogo do actor um percurso antropológico. Para que servem as mãos? O que são as mãos e que memória há nelas do a quatro patas? A tesoura é um instrumento que corta, prova-o nas unhas. E que tal no pescoço? Mas a tesoura recolhe à teia, como o lenço de bolso e o laço: a mesa da cirurgia suicidária e experimental estava montada. A vítima em carrasco de si mesmo. Eu não, vamos a isto: de costas voltadas, erecto mas deitado de lado, o actor olha o público e como Bartleby diz: preferia não o fazer, não voltar a fazê-lo, a engrenagem é posta em causa pelo que parece uma desistência.

 

CADEIRA DE EMBALAR
O movimento de balanço da cadeira é uma peça musical: a "berceuse". É suave e aplicado a adormecer a criança, o nascituro. A velha senhora, toda olhos, espreita pela janela o único exterior com que convive e espera ser olhada por um par de olhos semelhante, na condição, alguém como ela, enquanto o balanço corre, cadenciado e a leva para o fim, quando desce o estore.

 

Tradução e dramaturgia | Isabel Lopes
Encenação | Fernando Mora Ramos
Design sonoro | Carlos Alberto Augusto
Desenho de Luz | Carina Galante
Interpretação | Isabel Lopes e Fábio Costa

M/ 16 anos
Duração | 50m

Telephone 213 620 382
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