Talentos Emergentes • Tomás Moital

DESABAFO 
Tomás Moital percussão 
15 de Fevereiro de 2019 | 21h | O'culto da Ajuda | Lisboa
 PROGRAMA
 
J.S. Bach - Toccata em mi menor bwv 914
Iannis Xenakis - Rebonds a
Luiz Canmitzer - Last Words 
Vinko Globokar - Corporel 
Napoleão Mira - Máscaras d’Orfeu 
 
*este espectáculo contém nudez 
>16anos

Desabafo é uma obra multidisciplinar que comunica através da tensão gerada ao aproximar estéticas distintas.
Se num primeiro olhar, a marimba, conga, bombo e os restantes instrumentos de percussão anunciam um concerto de música erudita, no desenrolar de Desabafo, podemos observar uma constante subversão das lógicas de um concerto.

Existe uma tradição de risco inerente à prática clássica concertante, à semelhança de um herói helénico o esforço humano é incomparável à dimensão do seu objetivo. Esse risco é transmutado mas constante ao longo da peça, a primeira obra – “Toccata em mi menor, BWV 914 ” de Bach é um desafio para qualquer músico tem uma herança de mais de 300 anos e um legado de interpretações extenso, foi ainda escrita para teclado e é maioritariamente interpretada por instrumentos como o piano e o cravo, ao ser tocada numa marimba, que é tocada com 4 baquetas, existem dificuldades técnicas que tornam a sua interpretação ao vivo uma escolha arriscada, quase suicida; Esta vontade de explorar o erro através do esforço humano, não através de uma dramaturgia mas de um exemplo visual e sonoro, é uma constante na obra de Iannis Xenakis compositor da segunda peça “Rebonds a”. Esta peça é uma luta entre a subversão e o subterfúgio, entre andar ou correr, depois da primeira nota é imperativo deixar-se contagiar, pelo acelerando continuo, fatidicamente gradual, quase eterno que obviamente é o intérprete que imagina, num ato de derradeira coragem. “Last Words” de Luis Canmitzer é uma compilação de ultimas palavras de presos sentenciados com a pena de morte no estado do Texas nos últimos 30 anos. As últimas palavras destas pessoas são uma verdadeiras ou falsas? São um pedido de desculpas ou de revolta? São consonantes ou dissonantes? São sem dúvida uma escolha, imediata ou ponderada, que é ou não um resumo do que somos ou almejamos ser. Sejam elas verdadeiras ou falsas, são talvez o derradeiro risco de escolha, do qual as pessoas que as pronunciaram nunca descobriram o seu impacto. “Corporel” de Vinko Globokar é um risco para mim enquanto intérprete, a frontalidade que a obra exige obrigam a uma entrega completa à partitura e simultaneamente à apropriação da mesma, os movimentos grosseiros que percutir o corpo compreende são ao mesmo tempo imponentes e prepotentes, como uma reflexão que se recusa a dar frutos, o intérprete encontra perguntas que vai tentado responder ao longo da peça através das respostas do corpo. O culminar de “Corporel” é um poema do poeta Napoleão Mira, pai de Samuel Mira (Sam the kid), “Máscaras d’Orfeu”. O poema é extremamente forte e consoante com este risco e frontalidade que venho a construir ao longo da peça. Conduzido através das palavras de Pessoa “um poeta é um fingidor”, Napoleão Mira assume as suas influências vivendo cada um dos seus personagens não como um leitor mas como ele mesmo.

 

Este apetite em criar pela primeira vez um concerto, com todos os seus parâmetros dramaturgicos inerentes; elaboração de desenho de luz, figurinos e cenário é talvez uma forma de digerir e libertar 4 anos de experiência enquanto intérprete-músico-bailarino de Marlene Monteiro Freitas nos espetáculos de dança “de marfim e carne – as estatuas também sofrem” (2014, nomeado melhor obra SPA – categoria de dança) e “Bacantes – prelúdio para uma purga” (2017, premiado com leão de prata pela Bienal de Veneza). Este percurso paralelo, permitiu-me testemunhar e contribuir para a criação de uma obra performativa em todas as suas fases: desde a sua gestação, à criação de conteúdo performativo até ao seu nascimento. Esta compreensão holística de um espetáculo enquanto matéria que dialoga, despertou-me uma vontade em elaborar o meu próprio discurso artístico.

 

"o corpo dissolve-se mais depressa que as ideias.
No seu rasto ficam ossos e pó, que já não têm pele onde a ideias se possam agarrar.

E elas como o combustível de gasóleo que são fogem do moribundo na esperança de encontrar uma casa num outro ser vivo qualquer.

Estes homens nascem de uma ideia que os pariu.

Iram nascer quatro vezes, e morrer quatro vezes. E as suas ideias, de corpo e homem pensante, individual e concreto
escapam-se à morte do seu pai/filho para se abraçarem ao próximo corpo que lhes surja, num ciclo vicioso.

Mas tal como na vida, o número de vezes que podemos ressuscitar é limitado, e de todas as vezes que o corpo morre
(e a ideia parte para outro recetáculo) o conteúdo da ideia empobrece e despe-se da eloquência e da dúvida que a define até acabar, finalmente, nua.

O que é uma ideia nua?
A sabedoria de alguém que nunca iremos conhecer."

 

Biografia

Tomás Moital nasceu a 1994 no Seixal. Iniciou os seus estudos de percussão com 12 anos na Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense. Aos 13 anos frequentou,
durante um ano, o Conservatório Regional de Setúbal onde teve aulas com João Duarte. Aos 14 ingressou na Escola Profissional Metropolitana que frequentou durante 3 anos onde teve aulas com os professores Fernando Llopis (tímpanos e repertório de

orquestra), Francisco Sequeira (tímpanos), João Carlos Pacheco (lâminas), Miguel Herrera (tímpanos e repertório de orquestra) e Marco Fernandes (caixa, multi-percussão e música de câmara).
Após o seu percurso no ensino secundário estudou na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) onde obteve 19 valores no seu recital final. Integrou a classe dos professores Jeffery Davis (lâminas), Pedro Carneiro (caixa, lâminas, multi-percussão, repertório de orquestra e música de câmara) e Richard Buckley (caixa, repertório de orquestra e tímpanos). Frequentou masterclasses com: Pedro Carneiro, Artur Pizarro, Bart Quartier, Peter Vulperhorst, Jeffery Davis, Rainer Römer, Lucas Vis, Jean Geoffroy, Arnold Marinissen, Mike Quinn, Nancy Zelstman, entre outros.

No primeiro ano da ESML formou os Sforzanduo (duo de percussão) com o colega Miguel Filipe com o qual fizeram as diversas apresentações destacando-se “Estreia de Cinco Jovens Compositores da Escola Superior de Música”, concerto Auditório Vianna da Motta, Festival Jovens Músicos na Fundação Calouste Gulbenkian, recital do percussionista Pedro Carneiro, num concerto no Centro Cultural de Belém intitulado “Árvores, Chuva e Vulcões”, estreia da obra de João Madureira “Double” para orquestra de sopros e dois percussionistas solistas e a estreia da obra “redefinition...” de Daniel Davis para brass ensemble e dois percussionistas solistas. Em 2015 realizaram uma pequena digressão por algumas das universidades de Música de Portugal.

Tomás Moital está atualmente responsável pela classe de percussão da Academia de Música de Almada, e lecciona a disciplina de Lâminas na Escola Profissional Metropolitana.

Integra ainda as peças “de marfim e carne – as estátuas também sofrem”(2014) e “Bacantes – prelúdio para uma purga”(2017) da coreógrafa Marlene Monteiro Freitas enquanto intérprete- músico-bailarino.